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16 de março de 2015

16 de março de 2015 por Genealogia Fb comentários

Nº 2

Do artigo da autoria de Rui Faria,  «Um olhar sobre os registos paroquiais de São Torcato
– Uma Crítica de Fonte –»1, publicamos o relato que se segue, ao qual tomamos a liberdade de adicionar o título em epígrafe, usando as palavras do próprio autor para o seu enquadramento histórico:

O controle da igreja sobre os seus fiéis era demasiado apertado ao ponto de aos nossos olhos se apresentar como verdadeiramente asfixiante da liberdade individual e como tal inaceitável. Certamente, para o homem do século XVII, confinado ao seu exíguo horizonte rural, tais directrizes doutrinais eram tidas como vitais no caminho da redenção e como tal uma graça. Num país profundamente católico onde a Contra-Reforma eliminara todo e qualquer vislumbre de heresia, a liberdade só era tangível ao lado da Santa Madre Igreja e do seu Deus, cuja autoridade e dogmatismo permaneciam inquestionáveis. Eram muito poucos aqueles que se aventuravam a enfrentar tal poder, e se o fizessem, poucas alternativas os esperavam além da excomunhão ou dos calabouços da Santa Inquisição.


Com a chegada do Vigário João do Vale Peixoto a S. Torcato, a referência a maridos ou pais dos falecidos não passou a ser mais clara, mas deixar-nos-ia relatos onde «se alarga cada vez mais na exposição das últimas vontades dos defuntos. Chega a transcrever os testamentos, e com eles, todo um conjunto de relações sociais que o defunto mantinha, que nos permite um fácil enquadramento familiar. Contudo, aos que se viam impossibilitados de fazer manda, por nada terem, os velhos “vícios” mantêm-se e nos seus assentos pouco mais consta que seu nome e seu estado. 
Tal como nos nascimentos, também foi dele a autoria de um óbito que nos desvenda um pouco do quotidiano fortemente regulado pela autoridade religiosa, aclarando o que acontece ao católico que se desvia do caminho prescrito pela Santa Madre Igreja.»

É esse assento de óbito que abaixo se transcreve, vertido para o português actual para maior facilidade de leitura. A transcrição do original encontra-se no artigo citado.


Aos onze dias do mês de Janeiro de mil e setecentos e doze, faleceu Jerónima solteira da freguesia de Santa Cristina d'Agrela, filha de Domingos Antunes da mesma freguesia, a qual Jerónima morreu em casa de João da Costa do lugar do Sisto desta mesma freguesia, a qual morreu de repente fartando-se de vinho. E, perguntando a mulher do dito João da Costa se se queria confessar, ela lhe respondeu que não e indo eu a buscá-la para lhe dar sepultura, estando já nas escadas que sobem para dentro deste mosteiro, chegaram uns homens que a reconheceram, e mulheres, em que disseram todos os domingos o vigário Gonçalo de Sousa a dava por pública excomungada. Nestes termos a mandei recolher em uma casa e mandei dois meus fregueses, com carta minha, como foi Rodrigo d'Almeida e João Alvares, ambos meus fregueses que moram ambos no lugar da Cruz, indo ... a seu pároco me declarasse se estava excomungada, ou que a viesse buscar, ou mandasse a Braga buscar licença a Braga, o qual não respondeu à carta, somente disse aos ditos dois homens que lá me aviasse eu com ela e que mandasse eu a Braga, e que ele tinha posta de participantes por se não confessar na quaresma do ano de mil e setecentos e onze. E logo à vista disto despedi um próprio, que foi João Álvares da Cruz, com petição minha e a mesma carta que eu havia remetido ao dito vigário, a qual petição foi remetida ao muito Reverendo senhor Doutor provisor António de Sousa de Macedo. E mandou no seu despacho o seguinte:

O Reverendo suplicante devia, em caso tão grave, ir pessoalmente saber do pároco de Agrela se a defunta é a mesma e certamente andava excomungada, e averiguar com certeza na sua mesma freguesia se faleceu com sinais de contrição, que é só o caso em que merece por direito sepultura eclesiástica; e visto assim o não ter feito, lhe mando, sob pena de suspensão de suas ordens Ipso facto, e de prisão digo e ser preso, faça logo as ditas diligências, e quando não possa averiguar de maneira alguma que faleceu com alguns sinais de contrição, se informará se a mesma defunta se tinha desobrigado do reseiro da quaresma, e quando o não tivesse feito a não sepulte em sagrado, no caso que verdadeiramente estivesse excomungada e seja a mesma.
Braga, de Janeiro quatorze de mil e setecentos e doze
Souza

não dizia mais nada o dito despacho, e logo que chegou o próprio de Braga com o dito despacho, que seria uma hora, com sol parti logo à freguesia de São Miguel d'Agrela, e chegaria seriam onze horas da noite, por ser a dita freguesia acima nomeada distante duas léguas e tudo ser ruim caminho, com que achei verdadeiramente ter o dito vigário Gonçalo de Sousa posto de participantes a dita defunta, pelo que vi do rol dos confessados do ano de mil e setecentos e onze e certidão que me apresentou do escrivão da câmara, e também me constou do Reverendo Vigário todos os domingos a dava por pública excomungada na estação que fazia a seus fregueses. E logo no mesmo dia em que fui com o despacho do muito Reverendo senhor Doutor provisor António de Souza da Corte de Braga, requeri ao dito Vigário viesse comigo a reconhecer a dita defunta para saber se era a própria. E logo o dito vigário elegeu ao juiz da Igreja, a quem chamam João da Costa do lugar do Souto, e João Gonçalves da Eira, ambos da freguesia de Santa Cristina d'Agrela, pelos quais foi reconhecida e ser a própria, como também examinei a João da Costa do lugar do Sito desta freguesia e me disse que ela se não quisera confessar, mas antes o enganara dizendo que era da freguesia de Serafão, e trazia a dita defunta uma rapariga consigo dizendo era sua sobrinha porquanto era sua filha; tinha mais a dita defunta dado juramentos falsos contra seus vizinhos dizendo vendiam sabão e outro tabaco, aos quais fez prender, indo a dita defunta vestida de homem a cavalo a levar a justiça à porta, e outros muitos furtos que tinha feito fingindo-se ser filha de um capitão, com que a dita sua filha me disse que a dita defunta andava sempre pelos ribeiros e tinha andado com muitos soldados e almocreves com que achei ser a sua vida muito depravada, e dizia que sabia fazer feitiços. E assim foi sepultada a dita defunta no monte, junto de um penedo que chamam de Maria que está junto de uma teixugueira. E por verdade fiz este termo Era ut supra a qual defunta incriminou a Manuel Fernandes da mesma e a Inácio Francisco do lugar do Toido falsamente.
O vigário João do Vale Peixoto

estação - alocução, à missa conventual

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(1) publicado no Boletim de Trabalhos Históricos Série II. Vol. XVIII 2007/08, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães.

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