Repositório de recursos e documentos com interesse para a Genealogia

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31 de janeiro de 2018

31 de janeiro de 2018 por MC Barros comentários

Por Maria Isabel Frescata Montargil

Conhecia-a numa gaveta de um toucador, na minha infância. Não há muitos anos procurei o seu retrato … Perdera-se!
Num aniversário meu, por Janeiro, dediquei-lhe um pequeno texto (aquele cujos excertos agora partilho). Mas o retrato …
Esta foto é idêntica à que eu vira. Tinha sido oferecida a familiares, numa quinta que eu conhecera já abandonada. Tinham falecido… A empregada da casa guardou a fotografia, oferecendo-a a uma sobrinha, já idosa. Esta, por sua vez, porque sentiu que a vida lhe fugia, ofereceu-a a um primo meu, sabendo-o pessoa de família. Que então me ofertou uma reprodução …
(Tinha tentado entretanto conseguir fotocópia do seu assento de nascimento. Sem sucesso ... parecia maldição!)
Oferta "casualmente" (?...) chegada em novo aniversário meu …Tinham passado dois anos sobre o texto . Cerca de cem desde que a foto tinha sido tirada! 
Recordava-a bem! Era …
“ Uma menina.
Uma outra menina. Mais ou menos da sua idade. Uns seis anos, quando muito sete. Com os cabelos pelos ombros, risca ao lado e um travessão estreito a prendê-los. Lábios finos na boca pequena, fechada e firme. Muito séria. E aquele olhar imenso, de quem quer abarcar o mundo e os outros e não pode. Porque não pertencia ao mundo e os outros também não lhe pertenciam.


E fitavam-na muito fixamente aqueles enormes e muito claros olhos – diziam que verdes, porque ali eram em cinza. Toda a menina era em tons cinza esmaecida, quase sépia. A menina que vivia na gaveta era um retrato.
A dona da casa segurava-a com cuidado, mergulhava naquele olhar e ficava como que náufraga, como que perdida. Por tempos sem fim. Com a voz ferida, ia dizendo baixinho:
“- Se ao menos ela tivesse vivido poderia ser hoje minha amiga, quem sabe…Talvez pudesse desabafar com ela. Talvez me sentisse menos só …”.
“Ela” era a irmã que a dona da casa nunca tinha conhecido. Morrera muito antes do seu nascimento. Aos sete anos, com uma doença num braço, doença de estranho nome. Dela restara só aquela fotografia de uma menina diferente. E a lembrança a diluir-se.
….
Cheia de pena via a outra menina da sua idade. A “tia Maria”. Uma tia criança, em tons cinza-sépia e perpétua meninice. Fitou-lhe mais uma vez o rosto. Rosto cujo olhar levaria para sempre no seu.
….

Num dia frio de Outono procurou-a noutro lugar. Dia de Finados. Muitos anos mais tarde. A sua mãe partira também. Definitivamente. Era agora estudante e ainda jovem.. Não a encontrou; apenas um quase-berço de terra-chã, terra-mãe, rodeado por grades meio ferrugentas. Mais altas na cabeceira, como um pequeno altar. Numa pequena cama.
E dos ramos de flores que trazia, fez-lhe uma colcha de Primavera. Em florzinhas amarelas, brancas, rosa-vivo. Para a compensar daquele olhar a dissolver-se em cinzento-sépia e que um dia tinha sido verde como a Esperança.
Talvez que com aquela colcha ela regressasse depois do Inverno, como Perséfone. E colhesse as papoilas que não longe dali cresceriam. Mas ela não regressou, nem sequer à memória dos seus. 
Apenas à da sobrinha-menina da sua idade, talvez mais sua irmã que a mãe da menina. 
Crescera entretanto. Seria mãe. Colheria papoilas na Primavera e no Outono comeria grãos de romã. O ciclo continuaria. 
Mas no Outono da sua própria vida – a acinzentar-se – lembraria a Primavera no olhar da menina do retrato.
Inutilmente.


15 de agosto de 2017

15 de agosto de 2017 por Unknown comentários

Por Madalena Campos

Sabia-me uma mulher ligada ao Rio Guadiana e seus afluentes, por genealogia materna, conhecendo muitas das suas aldeias e vilas.

Da genealogia paterna, Escurquela, em Sernancelhe, Beira Alta, era a referência, juntamente com as vizinhas Fonte Arcada e Riodades. Todas as outras terras que vi citadas nos assentos paroquiais, como lugares onde nasceram e viveram os avós mais distantes, foram surpresa e levaram-me a sentir um desejo incontido de as visitar.


Mal sabia eu que o Rio maravilhoso que me habituara a amar no Porto, era, afinal, junto com vários afluentes, tão meu como o grande Rio do Sul. 
O Alto Douro de Peso da Régua, Vila Real, Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Lamego, Armamar, Tabuaço, São João da Pesqueira, Vila Nova de Foz Côa, afinal pertence-me, tal como ainda em Cinfães, Ferreiros de Tendais. 

Pensava ainda que o meu Mar era a Sul, desde a Albufeira natal até Vila Real, onde o Guadiana tem a foz. 
Acrescentei o mais encapelado Mar de Aveiro, cidade onde, na Rua Direita, viveram durante gerações alguns avós.
Juntei o Mar ao largo de Lisboa, capital onde bem no seu centro, viveram outros.

À ideia de que a Espanha fronteiriça que me dizia respeito era andaluza acrescentei a certeza de que a Espanha do Douro Internacional é raia que me toca também, lá para Freixo de Espada à Cinta.

A Forte, Farta, Fria, Fiel e Formosa Guarda e seu termo também vieram inscrever-se-me na pele.
Guimarães, que me encanta.
Póvoa de Lanhoso, que ainda não visitei.

Há dois Verões que o meu coração me leva a percorrer estes destinos, com a vontade de sempre regressar, com Escurquela a exercer o seu forte apelo, onde tenho bebido, com sede, junto dos poucos parentes da geração da minha avó e meu pai que ainda aí se encontram, informações fulcrais para seguir alguns ramos.
Neste lugar, ainda mais que nos outros, a emoção toma conta de mim, parece que os pássaros surgem em bando para me saudar com o seu canto, os aromas ficam mais enebriantes só para mim, o Rio que ali passa sussura-me segredos, as pinturas belíssimas do tecto da Igreja ganham todo o seu esplendor à minha entrada.


14 de agosto de 2017

14 de agosto de 2017 por Unknown comentários

Por Isabel Roma de Oliveira

Entrei na genealogia por acidente em 2005, quando morreram, no espaço de um mês, os meus avós paternos. Desse meu avô herdei inúmeros textos e fotografias, sendo que ele já guardava outros textos dos seus avôs. E assim comecei.


Quinta da Veiga, Padim da Graça

Entre inúmeras gavetas e baús encontrei um texto que fazia referência a uma casa cuja fotografia eu já conhecia. Era a Quinta da Veiga, casa dos avós maternos do meu avô, em Padim da Graça. Nessa casa passavam férias os filhos e os netos do casal José Dias Gomes Braga e Maria Amélia de Faria Couto Gomes Braga, meus trisavós. A fotografia parecia dum local idílico e a descrição acentuava o mito. Em 2006 aventurei-me à procura da casa. Fui a caminho de Braga, depois Tibães, Padim da Graça. Encontrei-a quase sem procurar, numa curva do caminho, um pouco mais “baixa”, porque o nível da estrada subiu bastante. Mas era a tal! Ainda se apresenta imponente, com uma grande fachada lateral, um portão frontal face à estrada e a famosa ramada. Imagino o que terá sido numa época em que a construção era mais escassa.

(fotos: 1876/ 2006)

Casa da Ribeira, Porto

A “mais alta casa de Cimo de Muro”, como toda a gente da família lhe chamava, era a casa dos avós paternos do meu avô paterno. Lá nasceram todos os 16 filhos dos meus trisavós. Lá nasceu o meu avô e os seus 2 irmãos. A casa tem estado toda a minha vida em frente aos meus olhos, mas nunca lá tinha entrado, até ao ano passado. Foi vendida depois da morte do meu bisavô, em 1961, e foi transformada num bloco de apartamentos. Recentemente foi novamente vendida e transformada num hostel. Quando me apercebi, marquei lá encontro com uma prima, trineta, como eu, dos primeiros donos. Pedimos permissão, explicando a nossa história, e visitámos, comovidas, uma casa cheia de memórias nossas, mas não vividas por nós!

(fotos: c. 1860 / atualidade)

Casa da Cisterna, Alfanzina, Lagoa

A Casa da Cisterna começou a ser construída em Maio de 1943, pelo avô materno da minha mãe, num terreno chamado Alfanzina. Originalmente, a parte de Alfanzina pertencente à nossa família, era dos bisavós do meu bisavô, que foi quem veio a herdar a propriedade.

Na empreitada de construção estiveram envolvidos dois pedreiros e o meu bisavô, na época com 33 anos, e que era o responsável por todos os trabalhos. No fim da obra foi ainda contratado um carpinteiro, para executar portas e janelas. Mas os trabalhos acabaram por envolver toda a família. O meu bisavô passou 6 meses a amassar barro, o que lhe valeu a alcunha de “Barrento”. Parte desse barro servia de cola às pedras (decorria a II Grande Guerra, pelo que não havia cimento em Portugal), outra parte era depois colocada em formas, pela mão da minha bisavó, e posta a secar, para fazer os tijolos. As paredes da casa chegavam a ter 50 cm de largura, o que tornava a casa muito fresca. A massa do reboco era uma mistura de cal e areia. No ano da construção toda a parte de trás da casa, virada a Nordeste, ficou rebocada e caiada. A frente ficou em bruto, com um reboco tosco, e só em 1958, aquando da construção do armazém, se aplicou o reboco final e se pintou com a característica cor azul-mar.

A família, à época constituída por pai, mãe e duas filhas, veio habitar a nova residência no final de Outubro de 1943, quando foi concluída a primeira fase da construção. Nessa altura a habitação era composta por uma casa de fora (divisão semelhante a um hall, mas maior e com outras funcionalidades), uma cozinha e um quarto, à direita. Frente à casa de fora surgia um corredor que ligava ao quarto principal e à sala de família, e que terminava na porta principal da casa, virada a sueste e ao mar. No telhado, com acesso pelo lado sudoeste, havia um sótão que servia de palheiro. No início de 1944 foi construída a alpendorada para a burra, o galinheiro e instalações para os coelhos, bem como um quarto de arrumos, que servia de armazém, e que ficava ao fundo da alpendorada. No ano de 1947, em Abril, construiu-se a cisterna. Em 1958, ano em que os meus avós se casaram, foi acrescentado à casa um armazém, no lado da estrada, o que permitiu transformar o quarto de arrumos noutro quarto de dormir. Em 1963 a casa adquiriu o aspeto com que permaneceria por muitos anos, com a construção do alpendre, onde ficava a casa de banho e o forno. A casa de banho era constituída por uma sanita (com ligação a uma pequena fossa) e por um chuveiro manual (basicamente composto por uma balde terminado em chuveiro, que se enchia com água fervida ao lume, elevava-se com a ajuda duma corda e abria-se e fechava-se com uma pequena manivela lateral; o escoamento da água do chuveiro era direta para a rua). Frente ao alpendre existiam ainda uma pocilga e uma estrumeira.

Quando o meu bisavô morreu, a 5 de maio de 1980, a minha bisavó ficou na casa. Como não existiam números de portas, algumas casas tinham nomes, para facilitar a identificação. A nossa casa não tinha... Por essa altura, o carteiro decidiu nomeá-la Casa da Cisterna, devido ao grande impacto que a cisterna de 1947, ao fundo do enorme eirado, causava em quem descia em direção à praia. Em todos os envelopes e postais vinha escrito, de lado, com letra tosca, o nome que a casa adquiriu. E nós passámos a dar a morada com o batismo do carteiro incluído! A 29 de Outubro de 1998 a minha bisavó morreu, sendo que a casa passou a pertencer aos meus avós. Em Julho de 2004 terminaram as obras de recuperação e ampliação. Este foi, e será para sempre, o meu paraíso!

(fotos: 1956 / atualidade)

kwADBraga, kwADPorto, kwADFaro

9 de agosto de 2017

9 de agosto de 2017 por Manuela Alves comentários
Quando descobri, nos registos de casamento de 1851 da freguesia da Sé, o segundo casamento do pai da minha trisavó Ana Olinda de Lemos deparei-me com uma história familiar que me remeteu para o ano de 1833 e para um episódio vivido durante o Cerco do Porto.

Aguarela de Alfredo Roque Gameiro



Conta-nos Júlio Joaquim da Costa Rodrigues da Silva [1], que no dia 1.° de Janeiro de 1833 chegou à barra do Porto a expedição do general Solignac com o seu estado-maior e 200 belgas vindos de Ostende via Falmouth na Inglaterra. Estas zonas já tinham sido contaminadas pela epidemia de cólera e durante a viagem declararam-se a bordo casos da moléstia. Avisado o ministério e D. Pedro IV do que se passava, foi enviada uma ordem ao inspector de saúde do exército para inspeccionar o navio, informar de imediato o que encontrasse e proibir, se necessário, o desembarque. Inexplicavelmente este foi autorizado e realizou-se na Foz. Os doentes, transferidos para os hospitais militares do Porto, propagaram a doença para a população civil, a partir do bairro de St.° Ildefonso, onde viviam as lavadeiras dos referidos estabelecimentos.

As deficiências alimentares resultantes do cerco e as péssimas condições higiénicas ajudaram à progressão da epidemia que atingiu o máximo em meados de Fevereiro, mantendo-se estacionária nos meses de Março a ]unho, declinando rapidamente em ]ulho e extinguindo-se em Agosto. 

Numa população calculada em 80.000 habitantes terão morrido cerca de 3.261. A violência do surto epidémico parece ter surpreendido o governo liberal que inicialmente reagiu lentamente e com hesitação. É verdade que logo após a irrupção do surto de cólera e durante o cerco actuou drasticamente, apesar das dificuldades militares e da pobreza de recursos, estruturando os socorros públicos de ajuda à população. Para tal criou uma comissão de médicos em serviço permanente para aconselhar e pôr em execução medidas necessárias como: instalação de hospitais para os doentes, organização da assistência ao domicílio, limpeza das ruas, prisões e habitações, enfim tudo o que fosse urgente para exercer a vigilância sanitária. Não obstante, a eficácia demonstrada foi tardia e não explica o erro inicial. É possível que a situação crítica do ponto de vista militar tenha levado a autorizar o desembarque dos belgas com receio de que uma recusa tivesse efeitos negativos no recrutamento de tropas mercenárias na Europa. (…)[2]

A epidemia atingiu, pois, muitas famílias portuenses que viram falecer desta doença alguns dos seus membros. Assim aconteceu na minha.

Joana Rosa da Graça, minha 5ª avó materna, faleceu a 13  de Junho de 1833, vítima da cólera no hospital improvisado  de S. Pedro de Alcântara, estabelecido na Quinta do Monte de Santa Catarina e que fora pertença dos Frades da Congregação do Oratório. E não fosse o seu viúvo pretender casar de novo, eu teria ficado na ignorância de um história de família com o seu quê de singular, pelo menos aos meus olhos de hoje, já que no passado tal situação seria relativamente vulgar.
E com quem casa o meu 5º avô em 1851?
Com Joaquina Rosa da Graça, irmã mais velha da sua primeira mulher, e com quem tivera filhos desde Agosto de 1834, o que significa que iniciou este relacionamento logo após a morte da primeira mulher. Os filhos são legitimados na altura do casamento, conforme consta do respectivo registo:
Vítor Rodrigues Cardoso, nascido em 4.8.1834  e casado em Miragaia, em 1859;
Eduardo Rodrigues Cardoso de Lemos, nascido em  5.3.1836
José Joaquim da Graça Rodrigues Cardoso, nascido em 3.4.1837. casado em 1857 no Rio de Janeiro, onde era caixeiro, e aí falecido em 1868;
Cristina Augusta, nascida em 15.9.1838

Na participação do óbito de José Joaquim aparece ainda  um José Rodrigues Cardoso de Lemos, que não averiguei quem fosse...

Partilho aqui esta história familiar, menos pelo interesse que possa ter em si mesma para quem não é da família , mas porque a considerei interessante por outros dois motivos:

1º o saber não ocupa lugar e a minha gente  ( e não só...) ficará a saber um pouquinho mais...
2º em genealogia nunca a investigação está acabada... novos documentos poderão vir a enriquecer esta história...
3º os mais imaginativos poderão criar estórias - que até possam servir de "hipóteses" para que se tornem histórias!


[1] Lusíada. História. Lisboa. II Série, n.° 1 (2004) Imaginario Social das Epidemias em Portugal no Seculo XIX, p. 95-125
[2] É certo que os liberais não foram os únicos a errar neste quadro político e militar. O governo miguelista só muito tarde se apercebeu do perigo de contágio (…) que a capital corria devido aos contactos com Aveiro e outros portos da Europa já atingidos (…)Assim, assoberbado com a preeminência das acções militares, reagiu tardiamente acabando por organizar hospitais para os doentes de cólera e tomar medidas de emergência para travar a propagação da epidemia semelhantes às do Porto.Ver o artigo citado para a extensão da epidemia a outras regiões de Portugal.

kwADPorto

1 de agosto de 2017

1 de agosto de 2017 por Manuela Alves comentários
Um dos efeitos colaterais da investigação genealógica é o desejo de conhecer os locais que foram o chão dos nossos antepassados, alguns deles completamente desconhecidos e sem qualquer reminiscência nas memórias familiares transmitidas oralmente.


Desenho de Eduardo Salavisa - Rua de Santa Maria, Guimarães



Agora que uns regressaram de férias e outros estão de partida e, enquanto esperamos pelos vossos textos, inspirados na evocadora fotografia do João Gonçalves, sugerimos o tema que dá o título a esta postagem.  A vossa participação enriquecerá o nosso blogue e, também, as vossas memórias para as gerações que nos seguem...

Mãos à obra, registando visual e oralmente o vosso turismo genealógico.... Ficamos à espera, no local do costume, o mail do Genealogia FB.


29 de julho de 2017

29 de julho de 2017 por Unknown comentários

Por Madalena Campos

Foi no “escritório velho”, como era designado, agora numa parte da casa que deixara de ser utilizada, de avô e bisavô do meu marido, que vim a perceber a que me dedicar com entusiasmo nos anos seguintes ao cessar da vida activa.

Fotografia de João Gonçalves


Tendo esse avô sido um homem que arquivava toda a correspondência recebida e expedida, havendo inúmera documentação desde o século XVII referente a prazos, heranças, compras, vendas, processos, diários, fotografias, revistas culturais antigas, recortes de jornais, passaportes, bilhetes de navios, pareceu-me haver em arquivo material suficiente, a constituir uma óptima fonte para continuar o trabalho dum tio padre, o Padre José Monteiro de Aguiar, que já tinha estudado a genealogia de duas casas da família, a do pai e da mãe, com dados que eram do conhecimento familiar, e por pesquisa presencial na Torre do Tombo.

A partir das genealogias dessas duas casas e consultando o etombo, parti à procura dos outros nomes de quem permitira a existência dos meus filhos, pela parte da avó paterna, tendo nessas outras fontes pessoais excelente complemento para perceber a que se dedicavam, com quem interagiam, até a traçar-lhes um perfil.

Foi aliciante ver que muitos desses nomes constavam dos documentos existentes nesse escritório e até outros nomes que fui encontrando nos assentos da freguesia e freguesias limítrofes, permitindo conhecer o relacionamento existente entre eles, em termos de parentesco, de amizade, negociais.

Houve na casa um homem a quem estiveram hipotecadas algumas quintas conhecidas, transmitidas a várias gerações. Um homem de negócios financeiros, efectuados em escritórios do Porto e Lisboa. Foi a esse homem a quem roubaram na ocasião da sua morte uma caixa de moedas de ouro existente perto do seu leito. Há um depoimento feito por filho, padre dominicano, que se encontrava no quarto, por onde passaram muitas outras pessoas, depoimento encontrado nesse escritório.

Há cartas de pais para filhos, de filhos para pais, ajudando a perceber os seus percursos. Diários em que são relatados acontecimentos especiais, como nascimento de filhos, falecimentos de esposas, júbilo por uns e dor por outros; fenómenos naturais ocorridos; caderninhos de receitas, uns, outros com formas de fazer face a maleitas várias, de orações, até de cantigas.

Foi graças a esse escritório que senti o gosto pela pesquisa genealógica de todos os membros da família, por todos os ramos, a que me tenho dedicado, para transformar o passado esquecido no presente em presente dando vida ao passado.


Texto inserido na série Do passado esquecido no presente ao presente dando vida ao passado

27 de julho de 2017

27 de julho de 2017 por Unknown comentários

Por Maria Isabel Frescata Montargil

Muitos anos passaram desde esta foto até ao dia em que me tornei sua neta… 
Eu, que avó de netos crescidos sou agora !
E, contudo, reconheceria sempre este rosto … a vivacidade, o brilho subjacente nos olhos embaciados. A voz …
Nos muitos dias, nas muitas noites com ela vividas, contava-me histórias de um mundo então já antigo . À luz do candeeiro de petróleo, que o “luxo” da electricidade ainda não existia. Histórias passadas lá longe, na vila; lá longe, na aldeia. Histórias que ouvira, de gente há muito desparecida. Histórias vividas junto ao castelo, salteadores terríveis que apavoravam gentes e povoações. Epidemias de funestas consequências por tempos de guerra e de que ouvira falar … Outras que vivera!
Allan Poe invejaria aquelas noites … Enquanto ajeitava as brasas a esmaecerem na fogueira (para quê a tenaz ? Os (calejados) dedos eram para tal óptimos), olhava-me. Num olhar de malícia e cumplicidade, que viveria para sempre comigo. Soltava uma gargalhada fina, a cortar a noite e os tempos ….



25 de julho de 2017

25 de julho de 2017 por Manuela Alves comentários

Casa do Largo, no Porto

              
Encontrei no Porto Desaparecido esta fotografia, proveniente do Arquivo Histórico Municipal do Porto,  que julgo ser a última da Casa do Largo, a casa dos meus bisavós,  onde eu nasci e, antes  de mim,  os meus tios avós desde 1911, e o meu tio materno Arnaldo José, em 1926.
Quando a casa do Largo da Cividade ou Largo do Corpo da Guarda, passou para a posse dos meus bisavós, em 1911, ainda não estava dividida. Isso só deve ter acontecido depois da morte da minha bisavó em 1920. E na parte dividida, à esquerda, por cima do estabelecimento de armador (funerário)  do meu bisavô José Maria da Silva passou a habitar a D. Lucília, professora primária, e seu marido, o coronel Machado.


2 registos da mesma casa com 30 anos de diferença - a casa foi comprada em 1908 ,pelo meu trisavô, teve obras e só passou a ser habitada pela sua filha única, Berta e sua família em 1911.

E como as memórias são como as cerejas, evocar o passado é também evocar as memórias dos vizinhos que povoaram os espaços dos nossos antepassados e quem sabe, dar pistas a seus eventuais descendentes que nos leiam. E cá deixo um exemplo:
A D. Lucilia era irmã da D. Irene Castro, também professora primária, casada com um advogado, pais do Professor Armando de Castro, da Faculdade de Economia do Porto e  do Dr. Raúl de Castro (e também do Amilcarzinho e da Ireninha, no tratamento familiar que era usado lá em casa). Ah mas há mais memórias. A Dra Isabel Machado, casada como Dr. Octávio Abrunhosa, professora e depois minha colega no Colégio de Nossa Senhora da Esperança, e mãe do Pedro Abrunhosa, era sobrinha do coronel Machado, casado com a D. Lucília (este casal não teve filhos).
E para terminar: na casa pegada, do lado direito vivia o ourives (creio) Guilherme Penafort de Campos, com estabelecimento no rés do chão, pai da amiga de infância da minha Mãe, a Lininha (Carolina) Campos. Esta veio a casar com o Dr. Raul de Castro.

E fica para outra altura uma história deste casal, que, fugido às perseguições da PIDE, esteve escondido  na nossa casa de Gaia, para onde tínhamos ido viver, quando a casa do Largo foi expropriada.


kwADPorto

16 de novembro de 2016

16 de novembro de 2016 por Manuela Alves comentários
Folhear páginas e mais páginas de livros em busca de nossos “defuntinhos” é cansativo, um pouco automático, e claro, exige muito tempo, paciência e determinação.
Normalmente, enquanto estou nesta árdua tarefa, meio que converso com eles: “onde você está?”, “não se esconda de mim!”, “por onde você anda?”, “vai, me ajuda a te resgatar”, “não me deixe no vácuo!” (risos). Claro, é conversa de doido, pois eles não podem me ouvir, mas sinto que assim de alguma forma ligo-me a eles.
O que passa pela cabeça de vocês, no que ficam pensando, enquanto fazem este árduo trabalho?

Assim iniciava o seu post no grupo “Genealogia FB” em 2 de Outubro p.p. a nossa amiga brasileira Márcia Helena Miranda de Souza, presença assídua e sempre disposta a ajudar, como muitos outros amigos que tornam este grupo, mais que um grupo de entreajuda , um grupo de amigos virtuais unidos pela paixão comum de investigar as suas raízes familiares.

Os comentários a este post foram muitos e constituem interessantes testemunhos do modo como nós nos relacionamos com as nossas fontes e construímos, passo a passo, a nossa memória familiar. Assim se vai fazendo da investigação genealógica um elo que une múltiplos espaços e tempos, cimentando gerações e aprendendo a respeitar como o diferente nos torna iguais.

Deixando no grupo a riqueza da multiplicidade e complementariedade de perspectivas , resolvemos, com a anuência dos respectivos autores , divulgar aqui alguns desses relatos, sem o mínimo desprimor pelos restantes.


Da interpelação dos ancestrais...

Maria David Eloy
Cara Márcia, acredite que não é a única a comportar-se assim. Comigo passa-se exactamente o mesmo, falo com eles, questiono, "pressiono" para se deixarem encontrar, faço "chantagem" emocional (se não se mostram, ficam fora do trabalho, da publicação!), enfim, relaciono-me com os documentos como se através deles eu arrastasse de novo à vida todos os ancestrais que me deram origem. É algo que só um genealogista compreende. Porque sabemos entender nas entrelinhas tudo o que passaram. 

a alguns relatos que nos deixam a pensar...

Rubens Câmara
Certamente já aconteceu com alguns de vocês: o nosso avozinho ou avozinha falecidos há 200 ou mais anos "escutam" nossos pedidos para que se revelem! Eu fiquei meses pesquisando no arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte, MG, Brasil, procurando registros de meu oitavo avó Phelippe Gomes Rodrigues da Câmara sem nada encontrar! Já havia desistido das buscas, agradeci e me despedi dos funcionários do arquivo e fui-me embora! Agora, acreditem-me ou não, antes de entrar em meu carro, fui "puxado" de volta ao Arquivo! Ao entrar lá, a secretária me indagou se eu havia esquecido alguma coisa lá, caneta ou bloco de notas? Disse que não, apenas pedi para pegar um livro aleatoriamente numa das estantes. Ela permitiu. Corri os olhos pelas dezenas de livros e peguei um que, provavelmente, não teria informação sobre o meu tal antepassado. Ele havia nascido por volta de 1750 e o livro que peguei era de batismos de 1840 a 1857. Abri aleatoriamente o livro exatamente onde estava, erroneamente arquivado, o "Testamento de Phellipe Gomes Roiz da Câmara falecido em 1811" !!! A partir desta descoberta pude desvendar toda sua ascendência até o primeiro Câmara (João Goncalves Zarco)! 

Maria David Eloy
Minha bisavó paterna chamava-se Maria Amélia Henriques da Silva, nasceu no dia 02.08.1842, casou no dia 17.10.1860 e faleceu no dia 23.04.1926. Sua filha, minha avó, tinha um caderno escrito pelo seu punho onde anotava todos os acontecimentos importantes da sua vida, para além de registar as datas de nascimentos, casamentos e baptizados da restante família. No dito caderno estava escrito "Meu pai chamava-se David Francisco Eloy, nasceu....(tal, tal, tal....) e minha mãe Maria Amélia....., nasceu no dia 2 de agosto de 1842......(e seguiam-se todas as informações quer do casamento quer do óbito). Quando comecei a fazer genealogia, aos 17 anos, comecei por este caderno. Nos assentos paroquiais, fui encontrando todas as datas, excepto o baptismo dessa bisavó Maria Amélia. Eu sabia a data de nascimento, sabia o nome, a filiação, a freguesia, tudo mas o dito registo parecia que se tinha evaporado. Pensei "se calhar a avó enganou-se e a bisavó não é natural da freguesia de S.Pedro". Pesquisei TODAS as freguesias da Covilhã, salvo erro 14!!!! E nada de aparecer o dito baptismo. Depois pensei " se calhar ela nasceu em S.Pedro mas foi baptizada em qualquer outra localidade que não a Covilhã". E desisti. Mas de vez em quando, lá me vinha o desejo de encontrar o seu baptismo e voltava aos mesmos microfilmes, vasculhados até à exaustão: pesquisava em Marias, Amélias, Marias Amélias e ...nada! Cinquenta anos depois,completamente desmoralizada pelo fracasso, ao analisar de novo o microfilme 188 da Covilhã, em busca de um antepassado diferente, o meu pensamento voltou a essa bisavó, inconscientemente, e acho que disse qualquer coisa deste género, para os meus botôes:"que raio, onde te meteste??? haja pachorra para te aturar!!!". Rodei a manivela da máquina dos microfilmes até cerca de umas dezenas de páginas e parei, para ver se a data que eu andava a pesquisar estava próxima. Os meus olhos tombaram num registo com os nomes dos meus trisavós e tetravós. Fui ler entusiasmada, pensando "Que sorte, encontrei mais um parente que desconhecia!". Analisei bem e tratava-se de uma menina, de seu nome Francisca. E voltei a pensar "a família vai ficar admirada quando souber que houve mais uma filha do trisavô". Só quando reparei na data de nascimento verifiquei que era a mesma de Maria Amélia. E pensei, então, “...engraçado, tiveram gémeas...”.Tirei uma fotocópia do registo. Em casa, ao arrumar na pasta das certidões, fui analisar bem o tal registo, para inserir as informações na base de dados. O registo estava muito sumido. Munida de uma lupa, comecei a ler tudo direitinho. A Francisca nascera no mesmo dia da bisavó Amélia, tinha os mesmos pais e avós de ambos os lados. E voltei a pensar "Que curioso, não imagina que havia uma irmã gémea da bivó". Olhando melhor, quase sumido na dobra da folha onde estas são cozidas, estava escrito: "Francisca mudou o nome para Maria Amélia pelo sacramento do Crisma". Estava deslindado o mistério. Ninguém na família soube, alguma vez, que a Maria Amélia fora baptizada como Francisca! Daí eu ter levado 50 e tal anos até descobrir o seu registo, pois sabia que se chamava Maria Amélia, assim constava no registo de casamento, de óbito e dos baptismos dos filhos, para além do caderno da sua filha que escrevera "Minha mãe, Maria Amélia....". Estes são os milagres que se deparam a todos os genealogistas. E foi um impulso, inexplicável, de pensar nela e percorrer o mic.188 pela N vez, quase insultando a sua memória, que ela se revelou finalmente!

João Luís Esquivel
Sou português, nascido no Algarve de onde sempre foram todos. Mas uma das n-avós tinha um conjunto de nomes assaz curioso que sempre consegui memorizar. De seu nome Benilde Sinclética Dourada da Silva. Não é gralha, não. Sinclética mesmo. Casou com o meu 5.º avô no Rio de Janeiro em 1810, na Capela do Palácio Episcopal. O dito avô tinha ido na "romaria" da Família Real para o Brasil e aí se apaixonou. Pouco tempo depois de casar voltaram a Lisboa. Nada mais soube da senhora. Esta informação tinha-a eu em 1980. [...]
Os anos foram passando e a oportunidade apareceu em 2012. Combinei com amigos, fui, e adorei mas resolvi ir uma semana antes para ter tempo de visitar a Catedral Metropolitana e procurar o paradeiro de Benilde. Depois de muitas peripécias, fui perdendo a esperança. Nada encontrava. Um vazio descomunal. Lá para o fim, aparece um processo de divórcio acontecido em 1755. Por ser tão recuado no tempo e ser de Divórcio!!! e por não ter encontrado nada do que pretendia, resolvi pedir o processo. As horas disponíveis estavam a acabar e “como prémio de consolação” quis ler o processo. Qual não é o meu espanto que esta senhora era a avó da dita Benilde, Teresa Felizarda de São José, minha 7.ª avó. O curioso da história é que a família dela e do marido tinham origem em….. imaginem? Olinda. 32 anos depois de repetir a história da minha avó brasileira que dançava na minha cabeça com a imagem saudosa da Carmem Miranda…. Tem brinco de ouro, (tem)…., Corrente de ouro, tem…. e o marido chamava-se João Dourado de Azevedo!!!! :)

A interacção com o Passado

Dulce Silva José 
Muitos dos meus antepassados conheci-os por ter pedido aos arquivos a sua pesquisa.Uma alegria quando recebia respostas positivas. Depois na Torre do Tombo mexer nos livros de assentos, com caligrafias impossíveis uma irritação, a descoberta de histórias difíceis de ter mais explicações "um tetravô assassinado na sua propria herdade"?? Fotografar as casas onde moraram "avós" no sec. XIX, uma emoção! Quando, num ramo, cheguei a 1640 tinha um parente com o mesmo nome doutro, cheguei a sonhar com ele várias vezes e não cheguei a conclusão nenhuma. Mas chamei nomes feios aos invasores franceses que queimaram arquivos nas zonas onde tenho ascendentes e que não permitiram prosseguir as pesquisas.

Eduardo Arantes Leão
Pesquisando tetravós que vieram dos Açores (Bernardo Homem da Silveira, José Garcia Pereira, José de Andrade Braga). Fiz junto a viagem, vi as ilhas sumindo além mar, senti o balanço da nau. O médico prometeu alta para o mês que vem... kkkkkkkkkkkk. Fico tão compenetrado que me transporto para o tempo.

Pedro Galego
Eu penso mais nos fatos históricos e como terá aquele antepassado sobrevivido a invasões francesas, guerra da restauração, guerra civil, etc. E terá ele sequer percebido o que se estava a passar? Creio que não. Apenas se preocupavam em sobreviver na sua árdua vida.

João Luís Esquivel 
Adorei ler TODOS os vossos comentários e partilho de muitos dos vossos pensamento. O que não foi citado foi que (quase) todos aqueles que pesquisamos Sobreviveram, viemos deles e eles são os vencedores, aqueles que nos legaram a sua história e transpuseram o Tempo. Por isso merecem o meu maior respeito e admiração. Com isto não quero dizer que os que ficaram pelo caminho não são valorizados. Interrogo-me tantas vezes quanta dor reflectida nos óbitos "faleceu sem testamento e sem descendência", ou como já disseram na perda dos jovens e filhos de tenra idade, quantas promessas perdidas. quanta tristeza. Por último, sempre que leio, e releio, e treleio os livros tenho sempre a sensação que me é facilitada uma brecha entre as cortinas do passado mas que não me deixa ver tudo o que há para ver, limitando a minha mirada ao que se lê nas entrelinhas e linhas que transpiram as suas vidas e jogam ao esconde-esconde comigo dando uma no cravo e outra na ferradura para me manter animado. Adoro este jogo!

Ana Cristina Almeida
Leio os livros todos, porque gosto de saber de quem se rodeavam os meus, imagino-os nos seus lugares, de onde se conheciam, de quem eram amigos ao ponto de serem padrinhos de um filho, ou se escolhiam o padrinho apenas por ser uma forma de demonstrar respeito e/ou servilismo a uma determinada pessoa ou família. Tudo isso me ajuda a conhecer o meu antepassado e tenho tido a sorte de encontrar registos de pessoas que foram importantes para o destino da minha família. E assim como ver um filme e como já sei o final, vou comentando, à medida que vou , coisas do tipo: O teu colega de trabalho tem uma irmã em idade de casar, são amigos, então porque não casaste com ela? e aí, vou procurar a pessoa com quem a moça casou, etc etc

E terminamos com esse desabafo da Maria Isabel Frescata Montargil :
Quando me olharem (suspeitosamente) e... e eu vir nesses olhares o "Sempre foi estranha com as estas "coisas" e agora deve estar a "endoidar!" , poderei então num desafio afirmar :"E agora como é?!..." E sempre posso "resmonear" para mim própria : "Credo! Tão insensíveis...

21 de maio de 2015

21 de maio de 2015 por Unknown comentários
Não encontro muitas histórias bonitas (...) Mas esta é a nossa história 
e fico feliz por cada antepassado resgatado ao esquecimento.

Fotografia de Beth Moon

Por Vânia Viegas

Sempre gostei de História e das histórias que a minha avó paterna me contava sobre a sua infância. Uma infância, passada nos anos 30 do século passado, tão mas tão diferente da minha. Não compreendia porque é que a minha avó começou a trabalhar tão nova, o não ter brinquedos, não ter ido à escola e não saber sequer escrever o seu nome.
Acho que a culpa desta dedicação veio mesmo do bichinho que a minha avó me deu. 
Quando era miúda costumava perguntar aos meus avós os nomes dos avós deles, como era a infância, o nome dos irmãos e escrevia tudo em papéis.... infelizmente estes tinham vida curta e acabei por perdê-los, uma e outra vez.

Em 2009 dediquei-me a isto de alma e coração. Fiquei grávida e subitamente senti uma necessidade inexplicável de um dia poder explicar à minha filha de onde vínhamos. Uma necessidade de um dia lhe deixar o resultado do que encontrei, uma espécie de legado.
Voltei então à carga e falei novamente com a minha avó paterna e o meu avô materno para obter mais informação.
Daí para a frente uma pesquisa que começou por duas freguesias do barlavento algarvio, estendeu-se a muitas mais. Comecei a fazer a genealogia do meu marido e acrescentei imensas freguesias do Minho à área de pesquisa.
Hoje transformou-se num vício. Um puzzle que nunca terá fim mas em que procuro sempre as peças em falta.

Pedi ajuda à família algumas vezes, fotografias, informações e relatos. Já tive quem me dissesse que devia deixar os mortos descansar em paz, como se andasse a esgaravatar túmulos e desenterrar esqueletos.

Em cima, da esquerda para a direita, fotografia da ficha militar do meu bisavô. Foto de 1921.
Fotografia da minha bisavó paterna (mãe da minha avó). Sem data (anterior a 1954).
Em baixo, fotos do meu avô paterno, em 1936 (fotografia da caderneta militar) e em finais da década de 60.

É verdade. Não encontro muitas histórias bonitas. Na verdade, é bem o oposto. Na família as fotos mais antigas já são de 1930. Ninguém sabia ler e escrever. Existiu pobreza, existiu mortalidade infantil, viúvas, doenças, expostos, trabalhadores rurais. Não é bonito nem tenho fotos lindas da família reunida nos seus melhores trajes de sociedade burguesa de início do século XX. Mas esta é a nossa história e fico feliz por cada antepassado resgatado ao esquecimento.



por Unknown comentários
Pode cada um de nós dizer, com rigor, de onde é?
Seremos apenas de onde nascemos? 

Portugallia et Algarbia quae olim Lusitânia
Mapa de Fernando Álvaro Seco

Por José Luís Espada Feio

Pode cada um de nós dizer, com rigor, de onde é? Seremos apenas de onde nascemos, muitas vezes fruto de um mero acaso ou de uma circunstância? Ou pertencemos também, e sobretudo, ao chão onde nasceram e viveram os nossos antepassados ao longo dos séculos e no qual deixaram a sua marca indelével?

Assim, serei só da Lisboa onde vim ao mundo ou também da Terra de Santa Maria onde no século XIII nasceu o primeiro dos meus antepassados Pimentéis? Ou de Bragança para onde foram na centúria seguinte? Ou da vila de Aldegalega de Riba Tejo onde 300 anos depois se fixaram os descendentes desse tal Martim Fernandes Pimentel?
Serei também de Évora, onde em 1713 nasceu o meu sexto avô Vicente Ferreira Godinho? e de Grândola, onde há 107 anos nasceu o meu avô paterno José Espada Feio? Ou de Cuba, de onde era natural o seu tetravô Bento de São Francisco Feyo? Ou de Alvito, onde nasceu o avô deste último no século XVII?

Serei igualmente de Sesimbra, onde em 1915 nasceu a minha avó paterna e antes dela todos os ascendentes de sua mãe por via materna até ao século XV? E de Lagos, de onde era natural seu avô Agostinho da Glória?
E de Melides, e de Azinheira dos Barros, e de Santa Margarida da Serra, e de São Francisco da Serra, e da Abela, e de Alcáçovas, e de Evoramonte, e de Machede, e de Cabeço de Vide, e de São Bento do Mato, e de Vera Cruz, e da Vidigueira, e de Vila de Frades, e de Alcácer do Sal, e de São Romão do Sado, e de Oiã, e de Meda de Mouros, e de Coja, e de Valezim, e de Vila Nova do Ceira, e de A-dos-Cunhados, e da Ameixilhoeira Grande, e de Carnide de Baixo, e da Golegã, e de Vila Nova da Barquinha, e de Santarém, e de Benavente, e de Benfica do Ribatejo, e de Glória do Ribatejo, e de Almeirim, e de Muge, e de Alpiarça, e de Salvaterra de Magos, e de Silves, e de Alvor, onde nasceram tantos outros meus avós ao longo de seis séculos?


Uma coisa é certa, dos milhares de antepassados que já localizei nenhum deles nasceu fora deste rectângulo à beira-mar plantado nos confins meridionais da Europa. Assim, pois, a minha terra é inequivocamente este Portugal todo, de norte a sul, das serras e das planícies, das aldeias e das cidades, do interior profundo ao litoral aberto ao grande oceano.

16 de maio de 2015

16 de maio de 2015 por MC Barros comentários
«A deferença dos tempos e longura das idades escondem ho 
saber das cousas e as metem em esquecimento».
- Pacheco Pereira, «Esmeraldo»


Fotografia de Beth Moon

Por Ana Pires

Não sei donde me vem este gosto de procurar saber sempre mais sobre aqueles que me antecederam, sobre aqueles cujo ADN partilho, sobre aqueles sem os quais eu não existiria. Comecei esta demanda já há alguns anos e lembro-me do gosto extasiado das primeiras descobertas, um gosto sempre renovado a cada nome, cada data, cada local que se soma ao que já sabemos. A minha percepção do tempo histórico mudou, como mudou e se ampliou o meu sentimento de pertença ao Território. Agora, quando viajo em certas zonas e leio nas placas toponímicas os nomes que conheço de outras grafias (e quase apetece escrever "graphias"), penso "no século XVIII andei por aqui"...
Tudo mudou claro, mas a curva do rio, o perfil do relevo na linha do horizonte, a cor das rochas permanecem os mesmos... e este sentimento é tranquilizante, de algum modo atenua o medo da Morte.
Outros por cá andaram. Outros por cá andarão depois da nossa partida. E, o sentimento de fazer parte deste contínuo de tempo e de espaço é quase palpável... e bom! Muito bom.
Depois, mesmo no espaço de poucas gerações é possível perceber como as circunstâncias jogam um papel tão decisivo no sucesso - ou insucesso - das famílias. E, isso, dá outro recorte a tudo o que conhecemos. Torna-nos mais gratos, devolve-nos uma outra noção de humanidade, do que, verdadeiramente, significa ser uma pessoa.


Não pensava escrever nada disto. Desculpem-me este desabafo. Aconteceu, simplesmente.
O que desejava, de facto, relatar tem a ver com o jogo insuspeitado de coincidências que levaram a uma grande descoberta e posso mesmo dizer, parafraseando o imortal Boggie "(to) the beginning of a beautiful friendship".

Não é fácil de explicar, mas vamos a ver se consigo:
Há pouco mais de um ano (7 de Março de 2014) conheci a Aida Caldeira. Eu tinha-me inscrito num grupo (Genealogia: Celorico de Basto e concelhos limítrofes) pois iniciava então o estudo da família do meu marido, cuja mãe é dessa zona. E foi isso mesmo que expliquei no post de entrada, acrescentando que tinha pouco a dar e muito a receber. Já não me lembro porquê mas a Aida perguntou-me donde era a minha sogra. "Do Codeçoso", respondi. "Oh, mas eu sou do Codeçoso"!
Convém aqui explicar que o Codeçoso são meia dúzia de pequenos conjuntos de casas ao longo da estrada... um daqueles lugares onde todos se conhecem.
"Como é que se chamava a sua sogra?"
"Maria Sara Teixeira" e, acrescentei, "vai ser muito frustrante estudar este ramo da família, pois ela era filha natural e ninguém sabe quem é o pai".

Aqui chegadas passámos para as mensagens privadas, cuja cópia com ligeiras alterações aqui deixo:
AIDA - A irmã mais velha da minha mãe, a minha Tia Maria, era casada com um irmão da sua sogra, o José!
EU - Oh my God!!! Mando-lhe esta fotografia de um encontro de família, tirada no Codeçoso em 1999. A senhora de avental era casada com um irmão da minha sogra. Julgo que se chamava Maria.


AIDA - Exatamente. É a minha Tia Maria e parece ser na Levada, onde ela morava. Ela morreu em 2003 com 80 anos. A minha tia Maria casou com José Teixeira, irmão de Maria Sara (por parte da mãe), Nunca o conheci, porque ele morreu afogado quando trabalhava na Barragem em Julho de 1969. Nunca tiveram filhos! Como a minha Tia Maria era mais velha que a minha mãe 23 anos (a minha mãe é a 10ª) e o meu avô morreu qdº a minha mãe tinha 5 anos, a minha mãe foi viver com eles...
EU - Olá Prima!
AIDA - É mesmo. Mas a melhor ainda está para vir.... Como sabe a sua sogra era filha ilegítima! Mas na aldeia todos sabiam quem era o pai! Chamava-se Avelino Pinto e por acaso é tão só pai da minha sogra....que acha disto??? Na família da minha sogra, a filha de solteiro do pai era assunto tabu...mas como eu e o meu marido andamos nestas andanças, e ainda por cima a minha tia era cunhada da Maria Sara, sabia da história!

Tenho mais histórias destas andanças genealógicas, mas nenhuma se compara a esta.
Devo acrescentar que o meu marido não chegou a conhecer o marido da Aida, seu primo direito (!) mas, teve a alegria de saber quem tinha sido o seu avô, informação que recebeu ao mesmo tempo que ouvia "Temos que nos encontrar".

E este "temos que nos encontrar" tão vibrante e genuíno - em tudo o contrário da rejeição de 1919 - foi o melhor de tudo.
Obrigada a ambos, queridos Primos. Temos que nos encontrar!

20 de abril de 2015

20 de abril de 2015 por Unknown comentários
Algures dentro de nós há uma torre caída
algures na perdida, perdida memória
- Manuel Alegre, in "Lição do Arquitecto Manuel da Maia", Atlântico


Sempre gostei de História. Da de Portugal também. E contudo é tão diferente o meu olhar sobre o nosso passado, desde que estudo as minhas origens genealógicas... Muitas, muitas gerações oriundas de lugares que nem sabia existirem, vivências de factos muito falados, mas até recentemente “alheios”. Sei agora que os “genes” de uma amálgama de gentes oriundas de muitos lugares e de todas as classes sociais correm em mim. Chorei com a “colera morbus” e com os nomes dos “meus” nas listas das valas comuns. Surpreendi-me com antepassados do clero idos para Pernambuco, em plena guerra dos quilombos. “Tremi” com Álcácer-Quibir e com a destruição de Malaca. Entristeci-me pelo desastre de Mamora e por Alfarrobeira. “Aterrei-me” perante a Inquisição e interroguei-me por aqueles que nela eram “oficiais”. Olhei o Tejo pelas “Tercenas” e o Sado a regurgitar jactos de água fervente perante o pavor de uma antepassada no final da sua gravidez. Tudo isto tenho “vivido”...
Maria Isabel Frescata Montargil


Mais uma vez a vida dá voltas e voltas e de repente estás no mesmo lugar. Andar a fazer a árvore genealógica da família é também descobrires-te a ti próprio. 
Desde que nasci que passo férias e fins de semana no Magoito, uma aldeia perto das Azenhas do Mar, junto à costa de Sintra. É lá que me sinto em casa. Já o meu avô ia para lá desde pequeno apesar de a sua família ser de Oeiras. Corria o boato que a família da minha bisavó Matilde era das Azenhas do Mar. Daí que nunca entendi aquele fascínio pelo Magoito se nas Azenhas também há praia. Porquê? Perguntei várias vezes mas ninguém soube responder. 

Depois de consultar os assentos de baptismo da família, constato que a minha trisavó Elvira nasceu nas Azenhas, mas que os seus pais e avós eram do Magoito. Ou seja, os meus tetravós e os meus quintos avós nasceram e viveram no Magoito desde pelo menos 1750. Imagino os meus avós dessa altura a pescarem e subirem arribas, como o meu pai faz e o meu filho fará, e sei que nesta vida nada é por acaso.


Deixo-vos uma foto de aproximadamente 1924, o meu avô é a terceira criança a contar da esquerda de fato de banho escuro, nasceu em 1916. Também estão nesta foto a irmã do meu avô, uma tia e a minha bisavó, além de avós e bisavós de pessoas que hoje em dia são meus amigos.
- Marisa Alves


Eu nasci em Faro e a minha esposa em Portimão e, quando decidimos casar em 2002, começamos a procurar casa fora do "rebuliço" de Faro (onde morávamos), sair da confusão da cidade e aproveitar a qualidade de vida que só os ares do campo proporcionam. Um amigo comum, sugeriu-nos São Brás de Alportel, pois não obstante ser uma pequena vila serrana, dispõe de todas as infraestruturas que estávamos habituados a ter na cidade e dista pouco mais de 20 km dos nossos locais de trabalho. Adquirimos moradia num sítio chamado Gralheira que dista pouco mais de 2 km do centro da vila, e após já estarmos instalados vim a descobrir através de documentação familiar que os meus ancestrais paternos provinham de São Brás de Alportel, mais concretamente do sítio da Gralheira desde pelo menos meados do séc.XVIII...!!! Ou seja, em 300 anos e com um interregno de 2 gerações (eu e o meu pai, que nascemos em Faro), houve um regresso fortuito às origens ditado quiçá pelo destino. Resta-me acrescentar que o meu filho já nasceu na Gralheira em 2007 e é até agora o 9º Manoel primogénito do ramo de Sousa Pires! Não acredito em bruxas, mas....
- Basílio Pires


A genealogia ajuda-nos a encontrar a família, a compreender a família e os seus percursos, mas também a desmistificar a família em histórias que nos foram passando como sendo certas. É por isso que se torna um compromisso para o resto da vida! 
A genealogia leva-nos, ainda, à dimensão certa da nossa identidade que, anteriormente, desconhecíamos: outra geografia, outras tradições, outros credos, a tal mistura de "rato do campo" e de "rato da cidade", para usar a deliciosa metáfora da Manuela Alves. Mas o maior impacto que encontrei, depois de alguns anos de pesquisas, foi o da inesperada lucidez da relatividade do tempo e a consciência da nossa própria finitude.
Leonor Araújo



Testemunhos partilhados no Facebook, publicados aqui com autorização dos autores.


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