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6 de novembro de 2015

6 de novembro de 2015 por Genealogia Fb comentários

Por António Júlio Trigueiros

Nos séculos XVII e XVIII, a liturgia barroca revestia-se de uma grande solenidade e o fausto que rodeava as exéquias, assim como o número de sacerdotes presentes num ofício, é um sinal indicador da qualidade social do defunto. Mas mesmo nos meios rurais, especialmente entre os lavradores mais abastados, eram frequente estes ofícios com duas ou três dezenas de padres.

Gustave Coubert, Funeral em Ornans (1849)


O ofício dos defuntos é parte integrante da Liturgia das Horas ou Ofício Divino, reformado segundo os decretos do Concílio Vaticano II e promulgado por Paulo VI, e compõe-se de quatro partes:
a) Ofício de leitura (que se podia rezar de noite ou de manhã muito cedo e substituiu a antiga hora de matinas)
b) Laudes (que se rezam geralmente no inicio do dia)
c) Hora intermédia (a meio do dia e que substituiu as antigas horas média, terça, sexta e nona)
d) Vésperas (rezadas ao entardecer).
Dentro destas horas há uma hierarquia. As Laudes e as Vésperas são as chamadas horas maiores, e por isso, a sua celebração revestia-se de maior solenidade.

Em que consistiam e consistem ainda estes ofícios? São normalmente cantados, ou apenas recitados, em alternância por dois coros de sacerdotes (daí a necessidade da presença de pelo menos 20 padres para constituírem dois coros) e compõe-se de um hino, dois salmos e um cântico, uma leitura breve (normalmente de uma epístola), um responsório breve, um cântico evangélico (o Benedictus nas Laudes e o Magnificat nas Vésperas), umas preces seguidas da recitação do Padre Nosso e uma oração conclusiva.

O Ofício de nove lições correspondia apenas ao ofício de Matinas, o actual Ofício de Leitura (após o Concílio Vaticano II) e designa-se deste modo porque era composto por nove leituras. Era rezado pelos monges de madrugada antes do romper da alva. Nas exéquias, e com o costume de velar o defunto por toda a noite, começava-se com esse ofício de nove lições o dia do seu enterramento.

Geralmente rezava-se ou cantava-se apenas uma destas horas litúrgicas, dependendo da hora a que se procedia às exéquias. Mas nas pessoas de maior qualidade e especialmente nos sacerdotes era frequente fazer-se todo o ofício. Nem sempre o ofício se fazia no dia das exéquias, podendo muitas vezes por conveniência dos sacerdotes ser celebrado depois.

Nos séculos XVII e XVIII, a liturgia barroca revestia-se de uma grande solenidade e o fausto que rodeava as exéquias, assim como o número de sacerdotes presentes num ofício, é um sinal indicador da qualidade social do defunto. Mas mesmo nos meios rurais, especialmente entre os lavradores mais abastados, eram frequente estes ofícios com duas ou três dezenas de padres.

A esmola deveria ser estabelecida no testamento ou então pelos herdeiros (nos chamados bens de alma) e, muitas vezes, a família ou o pároco tinham ainda que dar a colação que consistiria em servir uma refeição aos oficiantes.
Convém não esquecer que os oficiantes (párocos e sacerdotes das povoações vizinhas) se deslocavam por vezes de longas distâncias. Havia o costume de mesmo durante essa colação/refeição, se rezar pelo defunto. Para tal, o pároco ou o presidente da mesa tomava um garfo e fazia uma oração pelo defunto e passava-o ao vizinho que fazia o mesmo até ao último... (cf. por exemplo, António Gomes Pereira, "Tradições Populares, Linguagem e Toponímia de Barcelos").

Um ofício de 60 padres no século XVII, nada tem de extraordinário. Havia muitos mais padres do que párocos e muitos destes sacerdotes, frequentemente chamados padres "misseiros", viviam precisamente dos estipêndios que recebiam nestes ofícios. Muitas vezes o defunto deixava estipulada a esmola que se deveria dar a cada sacerdote. Nem era necessário que o defunto vivesse à lei da nobreza, bastava ser um lavrador abastado ou um proprietário rural para mandar celebrar este tipo de ofícios.
Ainda nos nossos dias, e apesar da carestia de sacerdotes, é relativamente frequente (no Minho por exemplo) celebrarem-se ofícios de 15 e 20 padres, especialmente nos meios rurais, entre as pessoas mais abastadas.
Os mais ricos mandam celebrar um ofício que, julgo, deverá ter no mínimo 20 padres, e os menos abastados mandam celebrar meio ofício, com metade dos sacerdotes. O ofício muitas vezes começa a ser cantado ainda na estrada, antes de chegar á igreja, pelos sacerdotes revestidos de sobrepeliz, e resume-se hoje ao ofício dos defuntos. Julgo que no passado seria coisa mais solene. É contudo uma celebração cada vez mais em desuso, mesmo nas aldeias.

As missas cantadas, frequentemente referidas nos registos, são missas onde parte ou a totalidade do cânone romano é cantada pelo/s sacerdote/s. Revestem-se de grande solenidade e era e é costume fazerem-se em ocasiões de grandes celebrações, entre as quais se destacavam especialmente as exéquias. As primeiras missas ou missas novas (como se chamam no Minho) eram geralmente cantadas. Em dias de grandes festas religiosas também se costumavam cantar missas, daí a expressão zombeteira do povo "hoje tive sermão e missa cantada"...

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