O Blog está agora em https://gentesdoarcodebasto.wordpress.com/
-
Com o fim do blogs sapo, passei o blog para
https://gentesdoarcodebasto.wordpress.com/
Há 1 mês
Ai mia senhor! quero-vos preguntar:
pois que vos ides e eu nom poss'ir
vosco per rem, e sem grad'a partir
m'hei eu de vós e de vosco morar,
ai eu cativo! por Deus, que farei?
Ai eu cativo!, que nom poderei
prender conselho, pois sem vós ficar!
Nom sei hoj'eu tam bom conselhador
que me podesse bom conselho dar
na mui gram coita que hei d'endurar,
u vos nom vir, fremosa mia senhor.
Ai eu cativo!, de mi que será?
Ai eu cativo!, que hei por vós já
viver em cuita, mentr'eu vivo for!
E os meus olhos nom podem veer
prazer em mentr'eu vivo for, per rem,
pois vos nom virem, meu lum'e meu bem!
E por aquesto querria saber:
ai, eu cativ'!, e que será de mim?
Ai eu cativ'!, e mal dia naci,
pois hei de vós alongad'a viver!
|
Quando se foi noutro dia daqui
o meu amigo, roguei-lh'eu, por Deus,
chorando muito destes olhos meus,
que nom tardass'e disse-m'el assi:
que nunca Deus lhi desse
de mi bem
se nom veesse mui ced',
e nom vem.
Quando se foi noutro dia, que nom
pud'al fazer, dixi-lh'eu, se tardar
quisesse muito, que nunca falar
podia mig', e disse-m'el entom:
que nunca Deus lhi desse
de mi bem
se nom veesse mui ced',
e nom vem.
Nom sei que x'est ou que pode seer
por que nom vem, pois que lho eu roguei,
ca el mi disse como vos direi
e sol nom meteu i de nom poder,
que nunca Deus lhi desse
de mi bem
se nom veesse mui ced',
e nom vem.
Nom sei que diga, tanto m'é gram mal
do meu amigo, de como morreu,
ca mi diss'el, u se de mi quitou,
e nom sacou ende morte nem al,
que nunca Deus lhi desse
de mi bem
se nom veesse mui ced',
e nom vem.
|
A moça aflige-se
porque, dias antes, quando se foi embora, o seu amigo lhe jurou, perante os
seus rogos e lágrimas, que voltaria muito em breve, e agora não vem. Nessa
despedida, ela até lhe tinha dito que não voltaria a falar com ele, se se
demorasse, de modo que não compreende o que se passa, pois ele garantiu-lhe
taxativamente que viria, sem mesmo mencionar um eventual impedimento ou mesmo
a morte. E o mais certo, pois, é ter mesmo morrido.
|
Vasco Gil, Afonso X
- Rei D. Afonso, se Deus vos perdom,
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.
|
A tenção é uma cantiga em que intervêm dois trovadores,
que discutem, em estrofes alternadas, uma questão entre si. O primeiro a
intervir é considerado, nos manuscritos, o autor da cantiga. O seu
interlocutor tem de manter, na sua resposta, o esquema formal proposto na 1ª
estrofe (métrico, rimático, etc.); a cada interveniente cabe o mesmo número
de estrofes (ou ainda de findas, se a composição as tiver).
A composição deve datar, como sugeriu Carolina Michaelis, do primeiro
ano do reinado do Afonso X de Leão e Castela, o Sábio (1252). Recentemente, William Kurtz
fez o estudo detalhado da cantiga,cujo resumo aqui transcrevo
Vasco Gil e Afonso X tratam de um assunto concreto (preito), com um
protagonista qualificado como trajeitador articulada a partir de uma
suposição legal no campo da jurisdição civil processual (posse e retorno
alterado de um manto, manto que por sua vez era um indicador de classe e
senhorio; com o acrescento de se opor à antiga legislação herdada (Livro de
Leão) o novo Direito (Decreto)
estudado nas escolas e pelo qual está explicitamente interessado o rei. Este
trajeitador é comparado a um rei que houve em Portugal.
|
Trata-se de um texto em que o enunciado é assumido por uma voz masculina, declarando a intenção de proceder a uma acção que visa propiciar o favor de uma mulher - Dona Elvira - que adoptara até então uma atitude hostil às iniciativas desse mesmo sujeito masculino. Esta acção em perspectiva que recebe a caução de uma terceira personagem - Martim Sira - que entretanto a aconselhara traduz-se na ideia expressa no refrão Morarei cabo da Maia,/em Doiro, antr'o Porto e Gaia.
Se é verdade que o cantar dos trovadores veio a consagrar por intermédio da linguagem da vassalagem amorosa uma conservador atitude de aceitação dos princípios do serviço vassálico e, sobretudo de resignação dos mais jovens perante a dificuldade da Imposição social por via do casamento hipergâmico*, tal não significa que a própria cultura trovadoresca não tenha sido capaz de dar forma a atitudes completamente opostas fossem elas no plano da idealidade, fossem na transposição literária de casos e situações do domínio concreto. Este texto é disso exemplo paradigmático. Embora o nosso trovador manobrasse também com destreza os modelos retóricos e temáticos da vassalagem de amor […] a sua opção é agora diversa porque bem diferente parece ser a sua atitude ao fixar a atenção no mundo feminino. Afinal estamos para por genuíno cantar de amor ao qual, no plano da realidade, venha corresponder um rapto, como se entre a ficção literária E essa mesma realidade houvesse uma insuspeitada continuidade narrativa.
![]() |
| Imagem Paisagem de Vermoim CC BY-SA 3.0 VitorEmanuelCarvalhoPeixoto - Obra do próprio |
No Hotel Rural Palácio da Igreja Velha, está implantada a Capela sob a designação de S. Francisco de Assis. Encontra-se adossada ao edifício, pelo lado Sul e nascente, ocupando a área de 75,5 m2. A Capela constitui, no seu desenho, um bonito exemplar da arquitectura neo-gótica, do séc. XIX, a qual pode ser considerada como caso algo raro. O acesso à porta principal é feito mediante um lanço de dez degraus graníticos, devidamente bocelados. A Capela consta de uma só fachada que é a anterior, onde se observam pilastras assentes em sapatas bem desenvolvidas. Há uma pequena rosácea em forma de cadernas invertidas e com vitrais. Na parte central, mas superior da fachada, domina a torre sineira, apenas com um só lanço e com a fisionomia das torres góticas, com quatro ventanas onde badalam três sinos. Todo o imóvel está equipado com perpianho de grão fino que, pela sua textura, manifesta ser estranho ao solo da jurisdição famalicense.
O interior está formado pelo corpo e presbitério. Naquele há coro-alto e o pavimento é em pinho Flandres. O tecto, em gesso e com artesoados, revela terem estado, na sua execução, mãos hábeis as quais conseguiram um trabalho que se destaca pela qualidade.
O presbitério, pelo contrário, tem lajes de granito.
Há um rodapé, em granito, com a altura de 62 cm, e nas paredes sobrejacentes, placagens em mármore. Para não fugir à normalidade, existe uma sanca em madeira.
O retábulo, de concepção gótica, é em castanho e com trono. No centro do mesmo encontra-se o padroeiro, S. Francisco, imagem que apresenta uma anatomia descritiva de execução muito cuidada. A acolitar esta imagem e em pequenas edículas, sobre plintos, estão as imagens de Nossa Senhora do Rosário e S. ]osé.
Quanto à imaginária, há um fenómeno pouco vulgar. É a existência de peças executadas com uma antecedência superior a um século da construção do imóvel. E, embora não se destaquem pela quantidade, porque são poucas, é pela anotação fiel e exacta do seu barroquismo que se manifesta a qualidade.
São dignas de uma descrição:
Nossa Senhora do Rosário, em madeira, barroca e estofada;
S. José, barroca, policromada e em madeira;
Cristo, madeira, séc. XIX e com uma estrutura anatómica que manifesta ter sido executada por um artista que soube transmitir à obra muita harmonia, equilíbrio nas dimensões e até, uma concepção rara.
Pintura com a iconografia de Nossa Senhora da Conceição, apresentando marcas barrocas e com um ou outro traço como réplica das obras do Murillo.
É de registar, sem dúvida alguma, o asseio e o óptimo estado de conservação do imóvel, bem como a cultura e sensibilidade artística dos seus proprietários, os quais souberam integrar, no seu meio, tanto peças devocionais adequadas, como até decorativas que enriquecem, como é óbvio, a Capela.
Fonte http://www.terrasdevermoim.com/
![]() |
| Fotografia tirada por mim em 2013 |
Assentos Curiosos
Repórteres do Passado
Testemunhos dos leitores
Curiosidades da Genealogia